Somos Solidários

Num momento em que a humanidade se comporta com muita intolerância e pouca solidariedade, foi animador testemunhar a organização espontânea e generosa das pessoas que se dispuseram a ajudar os que estavam em situação precária, nos alagamentos provocados pelas chuvas.

A adversidade fez aflorar o que há de melhor nos seres humanos, que saíram da proteção de suas casas para agir e apoiar quem precisava.

Famílias da nossa comunidade escolar se uniram numa rede de solidariedade, que se ampliou para fora do grupo, oferecendo alimento e roupas secas aos desabrigados, facilitando a comunicação com parentes e amigos, abrigando as pessoas para pernoitarem em suas casas, enfrentando com coragem, a pé, ruas alagadas para auxiliar e amparar os que se encontravam ilhados.

Para educadores, como nós, esses modelos positivos marcam profundamente a formação dos Alunos, que aprendem que compaixão e altruísmo são sentimentos para se levar vida afora.

Escola é lugar para aprender a argumentar e escutar o outro, competências fundamentais no desenvolvimento de crianças e jovens. O respeito verdadeiro passa por acolher, escutar e ajudar o outro sem discriminação.

Como pertencemos à espécie humana, que nasce inteligente, somos capazes de apaziguar os sentimentos de rancor e indiferença que nos rondam para resgatar a empatia pelos que precisam de nossa ajuda.

Proteger os outros faz parte de nossa natureza. É o que dá esperança à humanidade.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Dom e EmpenhoAprendizagem Steam​

As realizações de nossos filhos nos enchem de orgulho e nos deixam embevecidos. Os primeiros passos, os primeiros desenhos, a invenção de engenhocas inúteis, as conversas, o campeonato de natação, o elogio da professora, uma boa nota, tudo confirma que criamos um ser maravilhoso e que é capaz de tudo. E é verdade, nossos filhos são maravilhosos e podem conquistar tudo. Mas, como nada é simples, é preciso incentivar o desenvolvimento dessa pessoa querida.

Nossos filhos nascem inteligentes porque são humanos, mas a inteligência não vem pronta e não é dada inteiramente pela genética. Ela se constrói desde o nascimento, desenvolvendo-se com as experiências e desafios a que a criança é exposta durante seu crescimento. Um ambiente com experiências estimulantes, que favorecem e motivam a interação com a realidade, tem mais chance de desenvolver a inteligência da criança do que um entorno com poucos e parcos estímulos.

Além das circunstâncias, favoráveis ou não, em que a criança cresce, a curiosidade, o empenho, o interesse e a coragem de raciocinar fazem diferença na aprendizagem. Contar com o ‘dom’ da inteligência é um alicerce frágil. É mais confiável recorrer ao esforço e ao interesse para tentar compreender algum fenômeno, tema ou problema. Uma criança valorizada porque é ‘muito inteligente’ pode criar uma expectativa de si mesma que, quando não realizada – porque errou – pode trazer grande decepção. Ao errar, ela é capaz de imaginar que ‘deixou de ser inteligente’ e fantasiar o erro como um fracasso irrecuperável.

Porém, se a criança é valorizada pelo seu trabalho e persistência, ela acredita que pode recomeçar a enfrentar a questão para conseguir outro resultado, porque o erro é parte do esforço de aprender, não é falta de inteligência.

Apreciar a coragem de a criança pensar e arriscar raciocínios na busca de soluções, louvar o seu engajamento e a sua persistência são atitudes que a deixam segura para enfrentar as aprendizagens e resolver os problemas que encontrar pela vida afora.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Por que ir à escola?Fundamental 2

A escola é o evento mais importante na vida das crianças e dos jovens. É lá que passam bastante tempo no começo de suas vidas, experimentam relações sociais diversas, com adultos e com outros alunos de todas as idades.

A escola é lugar interessante, acolhedor e provocador da curiosidade natural dos seres humanos, receptivo a suas indagações e perplexidades, e onde se oferece um ambiente em que é possível exercer as potencialidades e habilidades pessoais.

Na escola, estão os amigos, e lá os interesses cognitivos são reconhecidos. É onde se adquire conhecimento relevante e significativo, onde se constrói autonomia, desenvolvendo capacidade intelectual e moralidade.
Além de referência cognitiva, a escola é referência social e afetiva, funciona como um porto de segurança emocional dos alunos.

Na escola, os alunos constroem os valores que asseguram a civilização, percebem a necessidade de viver em harmonia e compartilham dificuldades e temores com os amigos e com adultos, sempre prontos a amparar quem necessite. A escola burocrática, dos conteúdos, das aulas-palestras, do conhecimento descontextualizado não cabe no século 21.

Com a disponibilidade de informação e conhecimento a qualquer hora e lugar fornecidos pelos sites de busca, a escola ensina a acessar o que é relevante, a distinguir o principal do acessório, a lidar com a enxurrada de informação disponível na internet, a digerir os surpreendentes avanços da Ciência e da Tecnologia da Informação, e a discutir os graves assuntos éticos que despontam neste início de século.

A escola é o lugar mais interessante, mais instigante e mais divertido para as gerações mais jovens.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Um Bom Eleitor

Com as eleições próximas, precisamos pensar sobre nosso voto, sobre como usar bem esse direito e dever que nos cabem como cidadãos.

O filósofo americano Jason Brennan, autor do livro The Ethics of Voting, diz que votar significa fazer uma escolha racional, que leve em conta o bem de todos e não apenas seu interesse e seus sentimentos pessoais. Votar exige reflexão. A intuição e a emoção não são boas conselheiras na hora de decidir.

As convicções políticas devem ser fundamentadas em informações bem analisadas e não com base em opinião superficial, raiva ou preconceito. Isso não é fácil, porque as propagandas sabem apelar para nossas emoções, com técnicas que induzem reações deliberadas, o que pode interferir na capacidade de pensar criticamente. Todos nos achamos imunes às diversas influências, mas vale uma introspeção para examinar o quanto podemos ser afetados.

As informações de nossos contatos nas redes sociais costumam concordar conosco, o que pode resultar numa visão política estreita e referente apenas ao grupo que valida, automaticamente, o que já pensamos. Assistir a diversos canais e ler sites, com pontos de vista diferentes do seu, desafia o pensamento e dá oportunidade de repensar e questionar.

Vamos cumprir nosso dever cívico criteriosamente, sabendo que somos responsáveis por nossas escolhas.
A decisão que sair das urnas determina o futuro próximo do país onde continuaremos a viver todos juntos, o que implica tolerância, característica fundamental para a vida em sociedade.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Todo ser humano é capaz de aprender e ter consciência da própria aprendizagemEnsino Médio Escola Parque

Como nascemos inteligentes, desde o berço estamos aprendendo. A inteligência rege a capacidade de aprender. Diferente dos outros animais, conseguimos pensar e refletir sobre a realidade imediata e, também, sobre espaços próximos, ou distantes, e tempos remotos ou futuros. Além disso, desenvolvemos a consciência e somos capazes de indagar sobre temas abstratos, como justiça e liberdade, entre tantos outros. E refletimos sobre nossa própria capacidade de aprender, numa prática de metacognição.

O sujeito da aprendizagem interage com o objeto a conhecer provocado por uma necessidade, na forma de um desejo, interesse ou desconforto. A aprendizagem mais marcante é a que parte da necessidade de aprender para resolver questões relevantes. De um conserto da roda de um carrinho à explicação de fractais.

A atividade do aprendiz é fundamental para a aprendizagem. Ele precisa estar num ambiente que desafie sua inteligência, que provoque suas capacidades físicas e intelectuais para que desenvolva sua capacidade de aprender.
As crianças e jovens não são passivos. Questionam o que percebem e têm interesse em discutir suas experiências e descobertas. A escola é o lugar ideal para acolher as indagações e os diversos interesses dos alunos. A escola é lugar de aprendizagens significativas.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Para escolher a escola do meu filhoEnsino Médio Escola Parque

Para escolher a escola do meu filho, preciso refletir sobre o que ele deve aprender para ser feliz e produtivo, que pessoa eu quero que ele se torne, quais os valores que considero importantes para viver uma vida interessante e significativa.

Desejo que meu filho construa sua felicidade de modo autônomo, com base na realidade e dentro de um sistema de valores. Quero que ele se torne uma pessoa íntegra, interessada pelo mundo, curiosa, comprometida com o conhecimento e com seus semelhantes, solidária e responsável.

Acredito que frequentar uma escola não deve ser uma ação burocrática, com a meta de apenas acumular conteúdos, de modo mais ou menos desconexo, para cumprir o ritual de obtenção de diplomas.

Quero que meu filho vá à escola para aprender a refletir, para descobrir o valor do estudo, para desenvolver uma mente ágil e que relaciona saberes, para se encantar com o conhecimento, para aprimorar sua natural capacidade de pensar. Além do mais, quero que ele perceba os colegas como parceiros, que podem ser diferentes, que todos são interessantes, que devem ser respeitados e que a troca de opiniões e ideias contribui para o seu desenvolvimento. Desejo, também, que ele se sinta pertencente a uma cultura, que compreenda que faz parte de uma sociedade e que tenha uma consciência planetária.

Pergunto-me qual a função da escola hoje se, com a internet, a informação pode ser obtida em qualquer tempo e em qualquer lugar. Se o aluno chega com muita informação, espero que lá ele aprenda a relacionar os saberes, a refletir sobre o que aprende, a tornar o conhecimento instrumento para interpretar e agir sobre a realidade.

A era digital em que meu filho nasceu traz, todos os dias, desafios bastante diferentes das transições geracionais do passado recente. A tecnologia digital criou um novo ambiente e uma nova realidade. Entre tantos problemas que despontam, lembro as graves questões éticas da sustentabilidade do planeta e da criação de vida em laboratório. Espero que a Escola prepare as crianças e jovens para resolverem os reais problemas que enfrentarão, com ferramentas intelectuais, emocionais, morais e inovadoras para a criação de soluções.

Preciso ouvir o que a escola diz para saber se nossos objetivos são convergentes para a educação do meu filho, uma educação em que ele se torne uma pessoa preparada para seu tempo, responsável, justo, solidário e um cidadão consciente da necessidade de ter uma ação positiva na sociedade em que vai viver.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

O difícil desafio de ser adolescente

A adolescência é uma etapa da vida que se caracteriza pela instabilidade, pela transição e pelos desafios. É difícil até defini-la.

São mudanças físicas de crescimento e peso, de pele e de cabelo, visíveis a olho nu. São mudanças fisiológicas, alterações glandulares que afetam o sono e o humor. São mudanças nas estruturas cognitivas que, como uma lente 3D, permitem ver sob ângulos diferentes, entender muitos pontos de vista, pensar como o outro e pensar antecipadamente. São mudanças emocionais caracterizadas pela irritabilidade e extrema vulnerabilidade, por perceberem-se incapazes de lidar com todas essas mudanças.

O adolescente traz em si a criança que foi, o adolescente que se apresenta e o jovem que será. Por isso, em geral, oscila tanto a forma como o vemos e lidamos com ele: “Como assim? Quem você pensa que é? Você só tem … anos…”, ou “olhe só como se comportou” “você já tem … anos…” “com a sua idade já deve fazer isso”.

A verdade é que o adolescente vive um momento de embates fundamentais. Fundamentais porque são estruturantes do ser humano que ele é. E cada adolescente é um ser humano singular.
Nessa fase, ele se reconhece, precisa gostar de si para crescer e aperfeiçoar-se. E para maior confusão está cercado de outros adolescentes, vivendo essas mesmas questões.

A família sempre será o espaço de confiança, de referência básica e de suporte. Em todas as fases da vida.

Mas é na escola que o adolescente encontra espaço para o exercício dessas mudanças. A escola funciona como espaço concreto e simbólico. Nela, o adolescente encontra muitos “outros” e, com eles, dialoga, confronta, argumenta. Com eles, pode olhar a si próprio como a criança menor faz diante do espelho.

Os profissionais da escola assumem o lugar de referência, ampliando as identificações dos adolescentes (o modelo na Educação Física, na Filosofia, nas Artes, na Literatura, nas Ciências…) e ajudando-os a perceberem suas maiores habilidades, sinais de suas futuras escolhas profissionais.

É na escola que o adolescente pode falar de suas preocupações, suas tristezas e suas ansiedades, porque, em geral, elas também são, em formas e proporções diferentes, as de outros adolescentes. Os profissionais da escola, que lidam com os adolescentes, precisam estar abertos e sintonizar, empaticamente, com essas questões. Alguns fóruns, espaços psicopedagógicos, grupos de debates permitem que os adolescentes desabafem, expressem seus sentimentos e ideias, e possam ser orientados, ajudados e amparados.

O profissional que lida com o adolescente precisa funcionar como um suporte, isto é, ele também deve estar seguro de que ele não é um outro adolescente.

Nesse sentido, o posicionamento, a firmeza e os limites são muito importantes para o adolescente que está num momento de transição, tentando reconhecer-se e medir suas forças. O adulto que lida com ele deve ajudá-lo a se organizar, a estabelecer critérios e a fazer escolhas responsáveis; a dialogar com os outros e com a realidade de forma critica e numa expressão própria.

Quem lida com adolescentes tem que gostar de adolescentes. Tem que ficar fascinado com esse potencial imenso que ainda funciona inadequadamente, desordenadamente, tumultuadamente. Mas fascinado ante o desafio de, atuando, ajudá-lo a ser, cada dia que passa, melhor e mais humano, mais organizado e mais capaz de produzir conhecimentos.

Texto de Maria Luiza Gomes Teixeira, pedagoga, psicóloga e terapeuta de crianças, adolescentes e família. Coordena o atendimento psicopedagógico do NOAP, (PUC-Rio), e o CEPERJ (Centro de Estudos Psicopedagógicos do RJ).

Ler para as crianças

Ler livros é uma paixão que se adquire. Pelo exemplo, pelo treinamento, pela obrigação, pelo exercício. Na prática se descobre o encantamento e mergulha-se no fascínio que uma boa história provoca. É preciso ler para descobrir que livros valem a pena.

No mundo atual, com desejos imediatamente satisfeitos (desde o álbum de figurinhas que se deseja até a informação de que se precisa), ler um livro, seja qual for, exige concentração e persistência que parecem difíceis para quem vive em velocidade de banda larga.

Na rapidez do mundo dos computadores, não é fácil persistir na leitura, atividade solitária, demorada na informação e no desfecho. É preciso esperar para saber o que vai acontecer, ou para encontrar o que se quer saber. Não dá para absorver, com uma olhada rápida, uma história inteira.

O leitor destreinado também não consegue perceber a arte da língua escrita. Na verdade, todos os autores clássicos costumam ser rejeitados em todas as idades. A pressa não permite a fruição do bom texto. Apreciar a literatura clássica é para leitores já encantados com as possibilidades da palavra escrita. Para chegar lá, é preciso acostumar-se com o prazer de ler. E é de pequeno que se adquire o encanto com as narrativas.

Para criar leitores, a primeira providência é ter livros em casa, tanto para adultos quanto para as crianças. O adulto que lê livros dá exemplo para os filhos. As conversas cotidianas devem incluir o interesse pelo livro que o filho está lendo e contar sobre o que o adulto está lendo, sempre dentro das possibilidades de compreensão das crianças.

Contar uma história todas as noites ajuda a adquirir o hábito de ler. Ler livros para os filhos pode iniciar uma carreira de leitor. Depois que já sabem ler, é interessante instituir 20 minutos ou meia hora para leitura na cama antes de dormir.

Deixar os livros ao alcance do manuseio é mostrar que o livro é objeto que faz parte do cotidiano, que se espera que seja usado. Uma criança pequena pode rasgar um livro porque ainda não tem destreza para folheá-lo com facilidade, mas o livro não deve ser um fetiche, guardado longe, em estantes altas. Também não deve ser jogado de qualquer maneira. Um livro é para ser usufruído, o que significa ler e/ou olhar as ilustrações quantas vezes se deseje.

A leitura, como a conhecemos, vai mudar muito com o livro eletrônico. Porém, sobreviverá enquanto os homens tiverem histórias para contar. E não existe quem não goste de histórias. Ensinar a gostar de ler livros é uma felicidade que podemos proporcionar a nossos filhos.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Interesse pelo conhecimento

Um ambiente natural de aprendizagem inspira um forte desejo de aprender, que funda um estilo de vida intelectualmente produtivo.

Mas como propiciar um ambiente natural de aprendizagem? O prêmio Nobel de Física Richard Feynman, num livro com o título de O prazer da Descoberta, conta que sua paixão por entender o mundo e pela ciência começou muito cedo com o pai, caixeiro-viajante, que, quando vinha para casa, pegava o filho e saía com ele observando o mundo e fazendo perguntas.

Nesses passeios, o pai instigava o filho a entender os fenômenos que presenciavam. Por exemplo, o filho puxava pela corda um carrinho daqueles de madeira, cheio de bolas dentro. Nessa situação, quando o carrinho para, as bolas continuam até a frente do carrinho e só param quando chegam à madeira que as impede de caírem no chão. O pai chamou a atenção do menino para o fato, e ambos ficaram especulando: por que as bolas não paravam junto com o carro? Conversaram e procuraram muito (naquele tempo não existia internet com sites de busca) para entender o que era inércia. E desse modo, tudo era investigado pelos dois.

A história de Feynman ajuda a pensar sobre o ambiente propício ao desenvolvimento intelectual. Prestar atenção no mundo à volta e indagar sobre os fenômenos vivenciados são ações que incentivam a busca de conhecimento. Um adulto curioso alimenta a curiosidade natural da criança.

Há outro exemplo, de um grande psicólogo americano, Jerome Brunner, que num de seus livros relata que seu interesse pelo conhecimento surgiu numa aula de ciências em que a professora manifestou absoluto encantamento pelo fato de a água ferver. Não ligava para o dado de que fervia a 100º, mas pelo fato de ela ferver! O que leva a água a ferver? Diz Brunner que, então, aprendeu a se interessar pelos fenômenos e a perguntar sobre eles.

Segundo Aristóteles, todos desejam aprender. Mas, muitas vezes, não fazemos as perguntas que fascinam e interessam às crianças.

Família e a escola devem alimentar o olhar indagador sobre as coisas, devem oferecer experiências desafiadoras, favoráveis à reflexão, ao exercício da capacidade de pensar.

Um ambiente em que todos são curiosos, em que todos se interrogam sobre o que acontece à volta, é a melhor maneira de encorajar o interesse das crianças pelo conhecimento.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Inteligência se aprende e não é determinada apenas pela genéticaMatemática Fundamental 2

Nasceu gente, é inteligente”, afirmou Jean Piaget, porque inteligência não é um dom, mas uma característica da espécie humana. É preciso desenvolvê-la, e seu maior ou menor desenvolvimento depende da qualidade e da variedade das experiências trocadas com o meio.

A inteligência não tem um ponto de partida, um momento zero. Ao nascer, o bebê não está num estado de “não inteligência”. Nasce com reflexos, como o de sugar e o da preensão, e imediatamente estabelece relação com a realidade num processo de troca, que leva à construção de conhecimento, à aprendizagem, e que vai durar a vida toda.

A inteligência é produto da evolução biológica, um mecanismo de adaptação ao ambiente, e é parte de um processo complexo de interação dos seres vivos com o meio. O desenvolvimento da inteligência vai depender mais da qualidade das experiências que o meio oferece do que da herança genética.

A educação e a aprendizagem, bases de nossa cultura, interferem na evolução biológica com pressões de ordem sociocultural, junto com as pressões ecológicas naturais ao longo da existência dos seres vivos.
O conhecimento não está no objeto nem no sujeito, mas na interrelação dos dois. O sujeito age sobre o objeto de conhecimento que, por sua vez, age sobre o sujeito, e ambos se influenciam.

Um ambiente com experiências desafiadoras, que provocam a capacidade de pensar e de refletir, promove o desenvolvimento da inteligência.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Formando crianças em tempos de transição

Todos sabemos que o mundo mudou radicalmente e que o processo de transformação continua em ritmo acelerado. O homem inventou uma tecnologia que rompeu os padrões dos modos de ser, agir e pensar a que estivemos acostumados até agora. Como consequência, as relações econômicas, sociais e políticas se modificam, junto com uma revolução nas descobertas e invenções científicas, provocada por uma sinergia entre a ciência e a tecnologia.

O novo cenário provoca perplexidade porque é difícil interpretar os acontecimentos a partir de novos parâmetros, ainda desconhecidos e difusos. O “novo” costuma gerar rejeição e pode levar a um apego às referências antigas, muitas vezes defendidas de modo fanático, porque parecem mais fáceis e menos complexas.

Para criar filhos num tempo de transição, enquanto novos referenciais ainda não se definiram, é preciso refletir sobre o que pode permanecer de fundamental nos valores a transmitir e construir. Não parece que os valores da frivolidade consumista e das aparências do nosso tempo sejam base para se viver bem numa sociedade em mutação. A erudição, no sentido de memorização de muito conhecimento, também não parece mais necessária numa era de sites de busca, com informações disponíveis a qualquer tempo e lugar. O importante é saber estabelecer relações entre conhecimentos, é a capacidade de fazer análises e sínteses, de definir e solucionar problemas e o exercício do pensamento crítico.

Nossas crianças precisam aprender que são capazes de enfrentar desafios, que nem sempre os desejos podem ser satisfeitos, que os outros não são os responsáveis por toda a sua felicidade ou toda a sua infelicidade Os filhos precisam saber que são amados, mas o excesso de proteção não os prepara para viverem bem. Mais do que tudo, os valores a que valerá a pena se apegar são os valores que permitem a convivência harmoniosa, num ambiente justo, solidário, honesto e saudável. Os outros existem e precisam ser reconhecidos e respeitados.

A aceitação da diferença, a tolerância e a confiança na possibilidade de lutar por um mundo melhor são valores para se manter em qualquer tempo.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.

Fim de ano e o afeto

Andamos aborrecidos. Com o país, a cidade, os políticos, o mercado, o vizinho, os que votaram em candidatos diferentes dos nossos, quem pensa diferente de nós, com a vida.

Não esperávamos que, no século 21, voltássemos a nos deparar com tanta agressividade e com o retorno de fundamentalismos que assustam e complicam ainda mais um mundo cada vez mais difícil de entender.

Mas, como nós, adultos, somos responsáveis pela educação das crianças e jovens, precisamos cuidar do modelo que passamos para eles. Não é saudável crescer num ambiente agressivo, medroso, pessimista. Afinal, desejamos filhos tolerantes, que saibam acolher o outro e argumentar nos conflitos. Desejamos que sejam confiantes, que saibam agir e não apenas reclamar. Desejamos que sejam positivos e não ranzinzas. Queremos que briguem as brigas justas e que ouçam outras opiniões. E queremos que tenham esperança para enfrentar as dificuldades com a convicção de que podem mudar o que quiserem. Desejamos filhos afetuosos, amorosos e otimistas.

O fim de ano é um bom momento para refletirmos, com nossas crianças, sobre ressentimentos injustificados, o consumo excessivo no Natal e as desigualdades existentes no mundo. Refletir com elas, sobre como amparar os que realmente necessitam, é um modo de recuperar nossos sentimentos de afeto.

E o afeto é um sentimento alentador, que revigora a vontade de lidar com a vida.

Artigo de Patrícia Konder Lins e Silva, pedagoga e diretora da Escola Parque.